segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cultura e Cidadania

 

Os Limites da Cidadania 

 

“Ninguém, ninguém é cidadão”.

Caetano Veloso e Gilberto Gil

“O Brasil jamais teve cidadãos...”

Milton Santos

 

Encontramos a primeira ideia de cidadania, no Brasil, numa passagem do livro de Maria Isaura Pereira de QUEIROZ, que trata das relações políticas na época das "capitanias hereditárias". Os ocupantes dos postos públicos mais importantes eram escolhidos nas denominadas "Assembléia de homens bons". Estas assembléias consistiam numa reunião dos invasores portugueses, da qual eram excluídos os índios e os africanos e seus descendentes, considerados estrangeiros. A segunda ideia é citado por Teresa C. CARRETEIRO, em "Exclusion sociale et construction de l'identité", é a "cidadania enferma": ela se refere aos excluídos que se fazem de doentes para se beneficiar dos direitos sociais.

Da “assembleia dos homens bons” até “cidadania enferma", a concepção da cidadania no Brasil pouco se alterou. Os dois casos sublinham as relações entre o Estado e o indivíduo. No primeiro, é o Estado que distribuia privilégios à certos indivíduos ou grupos; no segundo, é o indivíduo que procura uma maneira de inserir-se no sistema de proteção o Estado. No entanto, a violência do Estado contra o indivíduo aumentou profundamente. Deixando, assim, a entrever que outros interesses de outros grupos ocupavam a lógica da intervenção do Estado.

Quando partimos do conceito de Thomas HOBBES, em O Cidadão, chegamos a conclusão que o sentido da palavra mudou profundamente. Para o ele, o cidadão é sujeito submetido a razão do estado. O cidadão de hoje é sujeito e objeto da ação do Estado. Apesar desta evolução, milhões de indivíduos estão submetidos à exclusão no mundo inteiro. Portanto, mesmo sendo cidadãos no sentido moderno do termo, a lógica da relação destes indivíduos com o Estado continua sendo a mesma.

A questão da cidadania continua ligada à discussão do papel do Estado. Émile DURKHEIM vinculava os deveres dos cidadãos aos deveres do Estado, em conformidade com a forma tomada por este último. Segundo ROSANVALLON, a questão do Estado providência sobrepõe-se cada mais à da cidadania. Para Bertrand BADIE e Pierre BIRNBAUM, "a construção do Estado provoca a emancipação dos cidadãos". LAUTIER considera que "o Estado é a base da emergência de um novo tipo de cidadania". Esta relação com o estado não é mais possivel, principalmente em países do terceiro mundo.

O modelo atual de cidadania é uma invenção da modernidade europeia. É a Europa do século XVIII que fixará as suas bases. De acordo com Guy HERMET, "o desenvolvimento do modelo parlamentar anglo-americano e o discurso dos revolucionários franceses desenham claramente o modelo aparentemente imprescritível e supostamente universal da cidadania ocidental". A medida que as conquistas sociais dos trabalhadores consolidam um conjunto de direitos, cujo marco é "Declaração dos Direitos do homem e cidadão", abre-se novas páginas nas constituições de quase todos os países.

No que se refere a conquistas econômicas e sociais dos indivíduos, duas novas discussões são trazidas ao debate. Bruno LAUTIER fala de "cidadania fragmentado", destacando as condições destes trabalhadores nas sociedades do Terceiro Mundo. LAUTIER afirma que a cidadania, nestas sociedades, se “desdobra em duas”. Este desdobramente procura apresentar a cidadania com uma imagem homogênea, esta engloba a cidadania civil e a cidadania política. Por isso, certos trabalhadores terão direito à uma “cidadania plena”, beneficiando-se dos direitos políticos, sociais e econômicos; outros têm direito a "cidadania adjetivada": que se estendem apenas no sentido desta adjetivação. Isto é, são submetidas a uma hierarquia de direitos e deveres. Elimar NASCIMENTO, cita o caso da "cidadania doente". Em consequência a maioria dos trabalhadores terão direito a cidadania parcial.

A tese da cidadania fragmentado, a "geometria variável", põe acento sobre o problema essencial das sociedades do Terceiro Mundo: a democratização. Com efeito, a cidadania fragmentada é o resultado direto e obrigatório de sociedades onde a democracia é sempre uma promessa de futuro. Nestas sociedades, cada fragmento goza e sofre de acordo com sua especificidade. Assim, concluímos com o poeta “reggae Man” Edson Gomes: “Eles querendo mudar nossa sina, nos injetando a inconsciência, dizendo que é a democracia, grande piada, conto de fada”. Em nossa paragem, o racismo impede qualquer possibilidade de democracia.

Dominique SCHNAPPER, em debate a respeita de imigração na Comunidade Europeia, interroga-se a respeito dos limites da cidadania econômica e social. Para ela, "pensar que os direitos econômicos e sociais são simplesmente a condição de exercício de cidadania política é continuar a pensar em termos de cidadania clássica". A autora introduz a expressão de "cidadania completa" no debate sobre a não extensão do direito de voto aos estrangeiros.

Da sua parte, LAUTIER define a "cidadania plena" em referência "a intervenção o Estado" : "O que caracteriza ‘cidadania plena’, isto é, uma forma de cidadania onde os três níveis (civis, políticos e sociais) estão presentes na definição do estatuto social da população trabalhadora e onde, estes direitos, são generalizados e garantidos pelo Estado, é a intervenção deste último, garantindo  estes direitos em diferentes níveis”. Ele centraliza a questão da cidadania na atuacão do Estado, entretanto, a ausência deste nos países colonizados determinar a inexistência dos requísitos básicos para a construcao da cidadania, quais sejam: a existência de direitos, sejam sociais, por exemplo, a segurança, econômicos e políticos

O conceito de cidadania alargou-se, ultrapassando as fronteiras européias. Entretanto, ele vai encontrar as ex-colonias ainda mergulhadas em processos de formação de Estado-nação. Em Alguns destes países, constata-se a sobrevivência do sistema de trabalho forçado. Haveria assim indivíduos privados da mais elementar das conquistas da modernidade, qual seja a liberdade. Porque o escravisado não era um cidadão, nem sujeito de seu destino: era antes de tudo uma "coisa", isto é um objeto que podia pertencer qualquer pessoa.

Contudo, pode-se considerar hoje que "a cidadania, no sentido clássico do termo, é unanimemente criticada. julgada e desvalorizado". Entedemos que a cidadania vai muito além do direito social e do direito civil. Ela deve incorporar novas demandas no campo político e econômico e, sobre tudo, no campo cultural. A conscienscia de pertencimento a um coletivo cultural é indispensável para construir um cidadão.

O Brasil nunca teve cidadão”, afirma Milton SANTOS. Em seguida, dá enfaze ao fato de que “os pobres não tem direitos”, por isso conclui que no Brasil nunca houve cidadania. A universalização dos direitos sociais nunca foi um luta da classe média, esta “buscava privilegios”, ainda SANTOS. Por isso, os quase quatro séculos de escravidão e o racismo existente até hoje na sociedade brasileira, visto que enquadramos escravidão e racismo como  restrição ao direito de ir e vir, isto é como restrição a liberdade. O mais fundamental dos direitos de um ser humano, sem o qual este não se pode constituir como cidadão.

Olhando do adro da fundação Casa de Jorge Amado a violência das forças públicas de repressão, sobre “os malandros pretos, os ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos, só pra mostrar aos outros quase pretos...”, Caetano e Gil se questionam se o “Haiti é aqui”. Esta violência demonstra o afastamento do Estado de seu papel institucional de garantir segurança, direito básico do cidadão. Informam ainda, nem a tecnologia, nem universalização da informação e concluem: “não importa nada, nem o traço do sobrado, nem a lente do fantástico, nem o disco de Paul Simon, ninguém, ninguém é cidadão”. Estes avanços que moldam a modernidade são insuficientes para garantir dos direitos básicos da cidadania, quais sejam: a segurança e a justiça. Então podemos afirmar: sim Manos o Haiti é aqui.

Os “malandros pretos” que tomam porrada na nunca são aqueles que produzem riqueza. Estes, nas manhãs de domingo, são os marginais da Feira do Rolo, à tarde, estão no Adro da Fundação Casa de Jorge Amado, tomando porrada na nuca. Mas não fazem parte da classe operário, por isso pouca atenção recebe dos arautos das revoluções. Para estes, cidadania, mesmo dentro dos limites do conceito euro/cristão, não tem importância.

Por isso, é preciso um novo conceito de cidadania que de conta daqueles que produzem riqueza, mas “tomam porrada”. Assim, entendemos que o que constrói a cidadania é o sentido de pertencimento a um coletivo cultural. Por isso, somos obrigados a concordar com a afirmação dos poetas: “ninguém, ninguém é cidadão” e de Milton Santos: “temos uma cidadania incompleta”.

A classe operária no Brasil sempre representou uma parcela mínima da sociedade, mas os seus ditos representantes se fizeram passar como capazes de nos levar ao paraíso. Esta falsa utopia impactou negativamente a luta por uma verdadeira cidadania. Com efeito, classes enquanto categoria ideológica teve seu início no começo do capitalismo industrial, enquanto as elites culturais europeus construíam impérios na exploração de africanos, estes fundamental para a supremacia dos europeus. Muitos de seus revolucionários só se interessavam por este “lado bom da escravidão”.

Em resumo, pode-se considerar hoje que "a cidadania, no sentido clássico do termo” perdeu todo sentido. Entedemos que a cidadania vai muito além do direito social e do direito civil. Ela deve incorporar novas demandas no campo político e econômico e, sobre tudo, no campo cultural. A conscienscia de pertencimento a um coletivo cultural é indispensável para construir um cidadão.

 

 

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

A Autoridade do Discurso

 

O fato de a maioria dos trabalhadores no mercado informal serem afro-brasileiros determina a visão das elites culturais. Essa visão identifica dentro desse espaço um reflexo do pensamento destas elites. Ou seja, se o afro-brasileiro é marginal, o espaço que ocupa também o é. Por isso, a Feira do Pau, o mercado peças usadas da Av. Suburbana são locais de marginais. Somente com os instrumentos da nossa cultura – “o pandeiro, o ganzá e o tamborim ... para nivelar a vida em auto astral”[1] nós poderemos mudar esta realidade.

Este não é um fenômeno recente. Acompanhou a trajetória dos afro-brasileiros mesmo durante o período da escravidão, quando foram responsáveis por quase toda riqueza aqui produzida. Todos os viajantes estrangeiros que passaram pelo Brasil anotaram a preponderância de escravizados em quase todas as atividades econômicas.

Durante esse período, várias leis impediram os africanos e seus descendentes de exercer certas atividades econômicas. As leis foram sempre de encontro aos africanos e seus descendentes. O exemplo, mais emblemático é a Lei da Terra de 1850. Éramos mais de setenta por cento da população e fomos esbulhados com este nefasto diploma legal. Várias foram as leis usadas para discriminar atividades em que a presença africana era dominante. Entretanto a resistência sempre se fez presente, como a reação a tentativa de regulamentação da atividade de ganhadores e carregadores de cadeiras que provocou a Greve Negra[2].

Após o período do trabalho forçado, os afro-brasileiros serão esquecidos, passando de bons escravos a trabalhadores mentalmente inadequados para o livre mercado[3]. Ficarão por suas próprias contas, sem quaisquer assistências social, no campo, na cidade e nas comunidades quilombolas surgidas na luta pela liberdade. E agora são vistos como marginais. A importação de mão-de-obra estrangeira será baseada na tese da incapacidade mental dos trabalhadores descendentes de escravizados[4].

As leis sociais que tentaram aplicar uma cópia do estado de bem-estar social no Brasil diziam respeito às categorias ocupacionais relacionadas aos interesses das classes dominantes. Assim, os trabalhadores ferroviários foram os primeiros a se beneficiar da proteção social, seguidos por outros trabalhadores em setores-chave, como bancários etc.

A pesquisa a respeito dos afro-brasileiros vai desde a antropologia médica de Nina Ribeiro até a Sociologia dos principais centros acadêmicos do Brasil e do exterior. No entanto, eles se concentram no afro-brasileiro como um objeto e são incapazes de dar uma resposta política. Instituições internacionais como a UNESCO e agências de financiamento, como a Fundação Ford, desempenharam um papel fundamental nestas pesquisas. Muitos delas, lideradas por importantes intelectuais da elite cultural reformista, são fortemente influenciadas pelas teses marxistas, centralizando assim suas análises sobre as relações de classe. Essas análises, embora importantes para compreender o movimento da dominação capitalista não conseguiram, no entanto, explicar a permanência dos afro-brasileiros nos estratos inferiores da sociedade[5].

Os trabalhadores afro-brasileiros são a maioria no mercado informal em razão do racismo. Em outras palavras, a discriminação é responsável por essa situação. Trata-se na verdade de ódio ao “outro”. Este “outro” se constitui à medida que se afasta do modelo. De fato, aqueles que mais se afastam do modelo do "mito ariano"[6]: macho, branco, olhos azuis, cabelos amarelos ou amarelados - encontram-se na mais completa precariedade. Portanto, é a diferença em relação a determinados padrões culturais que determina o lugar de cada um na sociedade.

A complexidade das relações sociais entre diversos segmentos sociais no mercado de trabalho enfraquece qualquer sistema de interpretação dualista: preto versus branco, capitalista versus operário, homem versus mulher, etc. Todas essas diversidades são observadas nas relações sociais, mais ou menos nebulosas ou agravadas por aspectos políticos, econômicos e, especialmente, culturais no mercado de trabalho.   Nesse espaço, como em outros, a discriminação leva em conta a distância em relação ao modelo, em suma, o que conta é o fato de ser diferente[7]. São essas diferenças que o mercado leva em consideração.

O mercado está longe de ser a instituição que os “liberais clássicos” entendem, simploriamente, como um espaço de relações de troca. É uma estrutura composta por diversas instituições - políticas, econômicas, sociais e até culturais, como aponta WALLERSTEIN e Etienne BALIBAR[8]. Tais instituições têm influências diferentes dependendo da formação social de cada sociedade. Em nosso caso, a influência da cultura como instituição cultura é decisiva.

Os profissionais das atividades pesquisadas são competentes e capazes de construir estratégias de sobrevivência que vão além da simples resistência. As tarefas que muitos deles realizam exigem conhecimentos e habilidades às vezes superiores às de certas atividades regulamentadas. Essa habilidade deve ser entendida em um sentido mais amplo que leve em conta a sobrevivência em um ambiente hostil. Demonstramos essa habilidade através da análise de quatro das atividades que foram objeto da pesquisa. Os desmanches/vendedores dos depósitos de sucatas de automóveis da Avenida Suburbana, os trabalhadores negros da construção civil, as trabalhadoras domésticas e os trabalhadores nos mercados populares.

Um exemplo é a venda de autopeças usadas, o vendedor deve conhecer a peça, pois muitas vezes é ele quem faz a pesquisa para o cliente.  A técnica de transporte leva em conta a forma como o carro do cliente passa pelo local interno onde está localizado o rompimento. Quando o carro desacelera, os vendedores se aproximam porque a concorrência é intensa.

Trabalhadores da construção civil são verdadeiros mestres. Muitas vezes até fazem o trabalho de engenheiros e arquitetos.  Como são trabalhos realizados na residência dos clientes, é necessária absoluta confiança, pois eles são responsáveis pela segurança dessas residências durante o período de trabalho.

As trabalhadoras domésticas realizam uma variedade de atividades que podem variar de enfermeira a dama de companhia. É uma das atividades mais tradicionais do Brasil, sua origem remonta à época da escravidão, muitas patroas ainda tratam suas empregadas como escravas, mantendo-as em espaços exíguos e insalubres.

Finalmente, os trabalhadores dos mercados populares demonstram uma verdadeira arte de negociação. Nos mercados onde a pesquisa ocorreu, pudemos observar um verdadeiro microssistema social, ou seja, uma reprodução de toda a lógica do ambiente em que o mercado está localizado. Nos mercados regulados pela prefeitura, os trabalhadores que pagam impostos seguem modelos oficiais, em outros casos uma forma singular de negociação é colocada em prática.

Em alguns casos, como na "Feira do Rolo", o local de trabalho se transforma em um espaço de autorrealização. A relação também pode ser de sofrimento, como frequentemente ocorre com as trabalhadoras domésticas, ou de satisfação, como se observa entre as trabalhadoras da Feira de São Joaquim e da Feira do Rolo. Nos três espaços acima, o trabalho apesar do pesado fardo era realizado com muito prazer e satisfação.

A situação que acabamos de descrever não significa que não haja conflito entre prestadores de serviços e clientes, e entre os próprios trabalhadores, porque os conflitos são inerentes às relações sociais. Em condições precárias em que os trabalhadores são forçados a estabelecer estratégias de sobrevivência, a concorrência e a solidariedade não são os únicos elementos de interação social.

A questão que norteou esse trabalho é: Se os trabalhadores são competentes, - produzem riquezas e as fazem circular - se há uma alta demanda por seus serviços e suas produções a tal ponto que é difícil encontrar profissionais e, acima de tudo, se os clientes são, como vimos, em sua maioria satisfeitos, o que motiva a sociedade, principalmente a classe média, a ter uma imagem tão negativa de suas atividades de seus locais de trabalho?

A falta de democratização das relações políticas nas sociedades marcadas por altas desigualdades entre segmentos sociais é o elemento que impede que segmentos não hegemônicos escapem de condições desfavoráveis. Bruno LAUTIER ressalta que há um esforço para manter a aparência da democracia, razão pela qual a cidadania assume várias facetas[9].

As diferentes qualificações atribuídas ao processo democrático como "democracia racial", "democracia relativa" e "democracia liberal", obscurecem o domínio político das elites culturais[10]. Isso porque o "Outro" como maioria numérica, poderia fazer prevalecer seus interesses culturais. É por isso que são necessárias falsas qualificações, que se somam à manipulação do processo político[11].

Por outro lado, a luta politica contra a discriminação assume modelos que aportam importantes contribuição para compreensão do processo de dominação. Com efeito, as teses do racismo institucional, o racismo estrutural, e, ultimamente, o racismo ambiental ou ecológico adotadas pelos militantes e intelectuais negros, e, muitas vezes fervorosamente defendidas por intelectuais brancos e importantes autoridades das elites culturais tem ajudado a colocar na ordem do dia o debate, assim como tem sido capazes de agregar um conjunto expressivo de militantes. Embora sejam incapazes de acenar com alguma solução.

A democracia é incompatível com as profundas desigualdades sociais na sociedade brasileira[12]. Embora haja, sem dúvida, desigualdades em todas as democracias ocidentais, elas são o resultado do processo de exploração capitalista e estão dentro do que Lautier chama de "modos estatais de regulação da pobreza"[13]. Isso significa que a pobreza tem uma característica econômica que os estados procuram administrar, sem mencionar o aspecto religioso e caritativo que alivia os pecados dos cristãos.

A falta de democracia se agrava em razão da falta de representatividade dos afro-brasileiros. O atrelamento das lideranças negras, nos anos oitenta, as organizações marxistas, impediu que estes tivessem um olhar crítico para as diversas ideologias de dominação cultural. Com efeito, mesmo as organizações negras com víeis cultural foram vigiadas e algumas vezes desqualificadas. Em razão disto, o economicismo deu o ritmo da luta política.

No Brasil, e mais especificamente em Salvador, a pobreza não tem finalidade econômica. O baixo custo de produção ou criação de um mercado de reserva de trabalho não são funcionais para o sistema. Com efeito, o capital se reproduz por outros meios, tais como corrupção, apropriação do capital publico, dentre outros. Nem mesmo propósito especificamente político, como muitos imaginam.  O clientelismo, embora exista, configura-se como exceção. É o resultado da falta de democracia.

A democracia não é um processo que se impõe de fora para dentro de uma formação social. Acompanha a evolução da sociedade. Há, no entanto, vários desafios implementados para atrasar esse processo, sendo a discriminação a mais utilizada em sociedades colonizadas onde as elites culturais estão em minoria. No entanto, a conscientização das causas desse atraso na implementação das conquistas da cidadania requer a decisão de interromper o processo de discriminação e reparar seus danos. Políticas positivas de discriminação são as principais soluções.

Nas políticas de ação afirmativa, deve-se explicitar que elas devem ser utilizadas para reparar os resultados da discriminação negativa - "racismo", machismo, entre outras. Esse é o primeiro passo do debate sobre essas políticas, ou seja, os debates devem levar em conta que a sociedade brasileira tem discriminado os afro-brasileiros e que é aí que reside a principal causa de pobreza, do trabalho precário e da presença de milhões de pessoas no mercado informal[14].

É evidente que os programas de ação afirmativa não são a única solução para o problema da desigualdade no Brasil, pois nem todos os que estão abaixo da linha da pobreza são afro-brasileiros. Para este último, a retomada do crescimento econômico representa a solução mais imediata, uma vez que, por exemplo, os “negros que são os primeiros que[15]". Em período de recessão econômica, “os quase-brancos” são os primeiros a serem convocados na retomada do crescimento.

Mas esses programas de ação afirmativa fazem parte de um conjunto de soluções ideais para mudar as condições em que os afro-brasileiros se encontram em nossa sociedade atual. No entanto, devem ser implementadas com outras políticas sociais universalistas. É o caso dos programas de transferência de renda. Esses programas podem fortalecer o mercado interno e garantir um relativo nível de crescimento.

No entanto, as políticas de ação afirmativa não devem se limitar às cotas nas universidades e nos serviços públicos. Também devem incluir políticas sociais focadas nos afro-brasileiros, como bolsas de estudo, melhores salários para professores da educação básica, programas de combate à pobreza em localidades onde os afro-brasileiros são a maioria, acima de tudo, crédito subsidiado.

As cotas nas universidades, no entanto, representam o passo mais urgente e importante nas políticas de ação afirmativa, pois colocam o "Outro" no espaço de produção e reprodução de ideologias.  Este tem sido o papel das universidades no Brasil, qual seja a reprodução teorias eurocêntricas. Com efeito, a produção de conhecimento está sempre vinculada à cultura hegemônica. Negligenciado desta forma os aportes de outras matrizes culturais. Não incorporando, em razão desta bitola, o “saber/fazer” constatado nesta pesquisa. como a universidade é um espaço de excelência na produção e reprodução das desigualdades entre segmentos, as cotas são uma ameaça assustadora para a maioria dos opositores dessa política. Em resumo, só as ações afirmativas no espaço de produção de ideologia podem mudar as estruturas de dominação das elites culturais.

Este trabalho demonstrou que a economia informal é a solução para a maioria dos brasileiros, representada pelos afro-brasileiros. Demostrou, também, empírica e teoricamente o acerto de alguns economistas liberais que afirmam que o mercado é capaz de regular as relações de produção. O que estes economistas não compreendem é que mercado não é apenas o espaço de relação de troca mais uma estrutura formada por instituição. No caso da economia informal a instituição que mais organização é o racismo, o verdadeiro substrato da cultura ocidental. Nesta atividade que abraça mais de sessenta por cento da população, na maioria vezes “debaixo de pau da polícia como se o trabalhador fosse fera”[16].

Os agentes da economia informal, integrantes da sociedade passiva[17], produzem riqueza. Esta riqueza não tem possiblidade de se reproduzir em razão da hipertrofia da cultura enquanto instituição. Com efeito, trabalho, credito e o acesso a terra passa pelo julgamento dos que a século se apoderaram das riquezas. Portanto, a democracia é uma “grande mentira, conto de fada”[18].

 As condições democráticas para superar os obstáculos ao progresso dos afro-brasileiro e, consequentemente, do Brasil passa pelo resgate da cultura enquanto centralidade no processo de luta política. Os debates desta centralidade devem ter como protagonista a elite insurgente dos intelectuais negros.  Pois esta retira o afro-brasileiro da condição de objeto onde tem sido colocado pelos orgânicos intelectuais brancos, arautos do “indentitarismo de classe”[19].

A integração dos afro-brasileiros requer uma radicalização da democracia porque a verdadeira democracia é incompatível com a exclusão da maioria do processo de tomada de decisão política.  O processo de tomada de decisão determina quem vai se apropriar dos frutos do progresso. Por isso, os “quase brancos” e seus “satélites das elites cultuais” se revezam no poder.

Por fim, deve-se dizer que o fim da discriminação da maioria é a solução para que o país faça parte das fileiras das sociedades modernas. A discriminação inibe o processo de competição porque um pequeno grupo tem melhores oportunidades sem sequer ter que competir. Essa é a vida da sociedade brasileira, como uma partida de xadrez onde: só os brancos podem ganhar.  No entanto, isto é impossível uma vez que a discriminação dos afro-brasileiros tem sua origem na cultura cristão ocidental e sua necessidade de exclusão e destruição do “Outro”. Somente com o fortalecimento da cultura deste “Outro”, será possível um convívio pacifico entre as várias culturas.



[1] "Sorriso NegroAdilson BarbadoJair de Carvalho e Jorge Portela, e imortalizada na voz de Dona Ivone Lara

[2] Joel REIS, Greve Negra. REIS, João. A greve negra de 1857 Bahia, 8-29 in Revista USP, n. 18 abr/out

[3] Furtado, Celso.

[4] Ver Caio Prado Jr., Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes.

[5] Florestan FERNANDES e Roger BASTIDE, Brancos e Negros em São Paulo; Florestan FERNANDES, Integração do Negro na classe sociedade.

[7] Nilo Rosa dos Santos, Sindicato, Poder e Alteridade.

[8]  Immanuel WALLERSTEIN,  Conflitos de classe no mundo econômico capitalista.

[9]  LAUTIER, os trabalhadores não têm a forma... no Estado e no Informal, p.62.

[10] SANTOS, Nilo Rosa, Sindicato, poder e alteridade: o "Outro" nas relações políticas.

[11] SANTOS, Nilo-Rosa. Elite e Dominação Política.

[13] Bruno LAUTIER, Os infelizes são os poderosos da terra..., p. 385.

[14]Preferimos a expressão europeia de "discriminação positiva" que afirma claramente que é de fato discriminação.

[15] SANTOS, Nilo Rosa dos, Mercado e etnia:

[16] Edson Gomes. Camelo

[17] SANTOS, M. Por uma outra Globalização

[18] GOMES, E. Rastafari

[19] Classe e Raça : a impossível conciliação.