sábado, 1 de julho de 2023

Na Perspectiva Nacional

 Na Perspectiva Nacional

Veremos que toda dependência ideológica descamba em derivas oportunista que podem chegar a desvios de condutas. Desta forma, a esperança de avanço se transforma paralisia de ação.

Os anos noventa não viu Godot. Mas na década seguinte, os intelectuais negros constroem estruturas que poderiam esquecer a espera. Suas associações de deveriam contribuir com outra leitura da realidade o que poderia desembocar em uma real construção de outras verdades.

Assim, nascia a ABPN na realização do seu primeiro congresso em Pernambuco no final de 2000. Sem vinculo direto com as estruturas ideológicas carcomidas, parecia capaz de uma construção ideológica autônoma, embora a maioria de seus integrantes eram oriundos destas velhas estruturas. No entanto, infelizmente seus principais dirigentes escolheram a dependência de novas estruturas que rapidamente apodreciam.

Seus encontros bianuais logo passaram a ser sobejamente financiados pelas elites culturais reformistas que empolgavam o poder no país. Mas a dependência econômica não prejudicava a tentativa de uma produção intelectual autônoma. Esta todavia, já tinha um comprometimento anterior.

A necessidade de subsidiar a elite cultural reformista prevaleceu. Importantes quadros na formação inicial da associação emprestaram seus talentos em carpos importantes, embora não em cargos decisórios. Fortaleceu-se assim a ideia da centralização na organização . No mesmo momento, importantes quadros originários da fundação se afastaram em decorrência destes comportamentos.

As derrotas das elites culturais reformistas no poder refletiram de imediato na perspectiva da associação de tal forma que alguns eventos não puderam ser realizados. Sendo este o preço da falta de autonomia. Esta dura realidade aguçou alguns comportamentos pessoais que redundaram em desvio de condutas e afastamento de alguns dirigentes.

A ABPN não cumpriu o seu papel. Ou o papel que alguns intelectuais presentes em Pernambuco em sua fundação, imaginavam. Qual seja, multiplicar-se por todo país, construindo associações nos estados, locais em que a pesquisa se realiza. Tentou centralizar nacionalmente de forma a competir com as associações dos brancos, facilitando com isto a obtenção de cargos no executivo nacional. O “copeninhos” os “departamentinhos” tentados pelas direções esvaíram-se.

São os representantes das elites conservadores que estão dando a seu modo uma resposta ao sem que os intelectuais negros brasileiros compreendam qual o seu papel. No episodio da primeira punição de um racista declarado, o Magistrado que um dia o “absolveu”, foi exemplar em seu julgamento, como se internamente ele tivesse se recuperando do primeiro julgamento.

Portanto, verificou-se que a promissora possibilidade de construção de novos critérios de verdade redundou em alguns perigosos desvios de conduta. Levando a ABPN  a obvio naufrágio. 

Nos Passos de Querino, rumo ao IX CBPN

terça-feira, 27 de junho de 2023

Os Juros Racistas

 

Para entender a insistência do Presidente do Banco Central em contrariar a ortodoxia econômica e manter a Selic nos atuais patamares, devemos sair da economia e adentrarmos na filosofia. Alias, esta é a formação do mentor desta autoridade, Roberto Campos Filho, seu avo.

Quem é o presidente do Banco Central. Um economista que trabalhou anos no sistema financeiro privado, portanto “servidor” dos donos capital. Com uma formação acadêmica e intelectual básica, este senhor foi escolhido como uma mensagem politica simbólica, já que o seu mentor foi um dos mentores do golpe de 64. Portanto, sua escolha não foi por mérito intelectual.

Sem mérito intelectual, este economista é o que restou do projeto racista derrotado nas ultimas eleições. Junta-se a isto a maioria conservadora do congresso eleito com o dinheiro publico angariado pelo “orçamento secreto”. Está formado o “escrete” da revanche.  Ele joga na “ponta direita”, atacando com lances absurdos e os “pernas de paus” jogam na defesa, não deixando passar qualquer avanço do projeto vitorioso.

Os juros são a remuneração do capital, por isso numa sociedade de exclusão. Os juros devem ser vistos como uma relação de confiança entre “o tomador” do capital e  “o cedente” que o detém em confiança de terceiros. Trata-se de uma relação direta, assim se a confiança é elevada, os juros serão baixo, caso contrário, os juros serão elevados. No da sociedade brasileira, a maioria dos “tomares” são afro-brasileiros os cedentes, os cedentes são brancos.

Portanto, o mercado, através de sua hipertrofiada “Instituição Cultura”, exige uma  elevada taxa de juros. Este torna-se o principal instrumento do racismo. É dentro desta lógica que se deve analisar as decisões de um “servidor” dos donos do capital. 

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Sindicalismo, autonomia e poder: o jogo dos anos oitenta

 

Sindicalismo, autonomia e poder: o jogo dos anos oitenta

            Artista, sindicalista e político Manuel Querino compreendeu o importante papel da Cultura na luta pelos trabalhadores. Por isso, deu-nos uma forte contribuição ao mostrar a importância da contribuição dos africanos e afro-brasileiros. Seus ensinamentos são passos a seguir para quem deseja lutar contra as injustiças promovidas por uma cultura de exclusão.

As elites reconstroem o "Outro" como seu contrário; este a completa e ao mesmo tempo a ameaça. Completa como portador de uma parte de sua história que ela insiste em negar. E ameaça, porque ele pode ocupar o lugar que culturalmente lhe é reservado. Este lugar pode ser nas relações de trabalho, nas relações políticas, e mesmo nas relações afetivas. E assim, ela (a elite) constrói hierarquias dentro destes espaços e congela as relações sociais dentro destes espaços hierarquizados. O resultado final se identificava com o modelo. Com efeito, a partir da segunda metade dos anos oitenta, os parlamentos municipais, estaduais e federal recebem os primeiros eleitos egressos do movimento sindical ligados à esquerda. Estes distanciam-se das referências simbólicas dos principais líderes sindicais que disputavam o poder institucional. Isto é, os líderes sindicais do início do processo foram usados como “boi de piranha” e, assim, foram “assassinados”.

Os sindicalistas negros que disputavam o poder neste período não compreenderam que se tratava de uma luta cultural, onde aqueles que eram negros não podiam chegar ao poder. Estes não dispunham de instrumental suficiente para compreender esta lógica. O instrumental que usavam era dominado por seus companheiros brancos. O mesmo acontecia com os militantes negros, sejam dos movimentos bairros; sejam do movimento estudantil, todos eram orientados por uma pseudociência, produzida pelos exploradores e sequestradoras de seus antepassados.

Os Afro-brasileiros não aprenderam a lição ensinada por Querino. Em razão disto, perderam o "bonde da história nas radicais mudanças ocorridas após os anos oitenta. As lutas empreendidas por nosso Mestre tinham a pauta da autonomia de atuação como guia principal da defesa da classe trabalhadora.

A conclusão que nos vem é que uma luta legitima e oportuna no tempo e no espaço é inseparável do contexto social e das relações nele inseridas. Assim, no cenário da desigualdade social baiana, que opõe os afro-brasileiros e os representantes da “elite cultural reformista”, prevalece a lógica de exclusão do Outro. O que nos intrigava para chegarmos a esta conclusão era: como um quadro político heterogêneo se confundia com um quadro social, político e econômico? A resposta só́ pode ser encontrada ao se analisar o quadro histórico de uma sociedade que tentou construir uma homogeneidade tendo como base a exclusão do "Outro".

quinta-feira, 15 de junho de 2023

A Bahia dá Regra e Compasso: Manoel Querino é o modelo

 


A Bahia dá Regra e Compasso: Manoel Querino é o modelo

 

Manoel Querino deu regra e compasso para a transformação da realidade do negro no Brasil. No IX CBPN, vamos mostrar como.

 

Artista, sindicalista, jornalista, pesquisador foram as inúmeras atividades deste que foi um dos mais completos intelectuais brasileiros. Nascido em Santo Amaro da Purificação, lá se vão cento e setenta e dois anos, fica órfão de pai e mãe aos quatro anos de idade.

 

De artista a pioneiro na pesquisa da cultura africana no Brasil, Querino vai do engajamento militar a uma propositiva ação parlamentar. Neste percurso, denota-se uma profunda preocupação em defesa daqueles que vivem do trabalho.

 

Depois de uma bem sucedida atividades na busca da construção de agregação, Querino vai se dedicar exclusivamente a uma produtiva atividade intelectual pesquisa. Sua vasta produção intelectual, registrada em diversos textos, trazem profundos ensinamentos.

 

Hoje importantes pesquisas mostram a contribuição de Querino para a luta pelo resgate da cultura Africana e Afro-brasileiras fundamentais na luta contra o racismo.

 

É, tentando seguir estes passos, que vamos contribuir neste Congresso Baiano de Pesquisadores Negros.


Rumo ao IX CBPN

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Pretos Oitenta e Dois

 

Pretos Oitenta e Dois

 

Pretos Oitenta e dois comprova que toda tentativa de autonomia do movimento negro sofre um processo violento de reação. Veremos que neste caso a reação, esta reação, vem daqueles que se colocam sinceramente ao lado da classe operário, mas que ousam a reagir a todos que, mesmo estando ao lado dos oprimidos, contrariam seus credos.

 

A abertura politica, iniciada em meados dos anos 70, vai encontrar o movimento negro iniciando um novo momento de luta. A primeira eleição livre aconteceu em 1982. A legislação partidária autorizou a participação de vários segmentos ideológicos, levando a formação de vários partidos das elites culturais reformistas.

 

O Partido dos Trabalhadores foi a grande novidade. Agrupava em seu  interior organizações marxistas que pretendiam disputar o destino desta agremiação. As organizações mais a “esquerda”, principalmente as ligadas ao pensamento Stalin, não se legalizaram em razão da desconfiança dos propósitos dos militares, continuaram abrigadas em algumas legendas. Dentre os candidatos ligados aos movimentos sociais, se destacava Ivan Carvalho.

 

Ivan Carvalho lança o manifesto “Pretos82”. Neste documento, manifesta-se, corajosamente, contra a ditadura militar. Neste manifesto, Ivan Carvalho relacionava vários candidatos pretos. A maioria dos pretos relacionados eram integrantes de organizações marxistas abrigadas no Partido dos Trabalhadores. A ideia do manifesto foi repudiada por muitos dos relacionados; alguns ameaçaram agir com violência contra Ivan Carvalho. Embora o manifesto não os vinculava ao candidato. Provavelmente, alguns dos relacionados não se consideravam “pretos”.

 

Ivan era economista e engenheiro químico. Era um profissional capaz e muito respeito em suas atividades. Desta forma, bem sucedido profissionalmente Ivan Carvalho era invejado por muitos que militavam ao seu redor. Era um pai exemplar, sempre preocupado com a forma de seus filhos. A carreira politica foi marcada pela ousadia e criatividade. Ivan não tinha ligação politica com os grupos políticos que disputavam o poder. Candidato a Deputado Federal em 1982. Candidato a senador em 1988, ele enfrentou o todo poderoso, aquela época, dono da Bahia.

 

O aparecimento de novos partidos políticos colocou no cenário politico novos atores. Estes atores travaram uma luta “sans merci”. Muitos dirigentes sindicais negros foram cassados como pelegos ou como parceiros indesejados no compartilhamento do poder que apresentava como possível. Eram “Outros”, apenas com o papel legitimador, qual seja “culpados inúteis”.

 

“Pretos/82” pretendia agrupar os candidatos negros centralizando a luta no combate ao racismo. No entanto, os candidatos relacionados eram militantes de organizações marxistas e entendiam que a questão racial dividia a luta a classe operária. Para estes pretos primeiro deveríamos fazer a revolução proletária da classe trabalhadora usando suas teorias revolucionarias importadas do estoque dos sequestradores de seus antepassados.

 

Muitos dos  “pretos” listados no Manifesto Pretos82 são hoje militantes de organizações negras. Com efeito, abrigados em ONG, sindicatos e instituições publicas, estes, agora de fatos “pretos” ainda  mantenham a mesma leitura da luta politica. Frustrados em seus propósitos políticos em decorrência da exclusão em seus partidos e grupos políticos, alguns até expulsos.

 

Portanto, Ivan Carvalho era um politico a frente de seu tempo, uma vez que “Pretos82”, na verdade, foi um manifesto pela autonomia da luta do politica do Povo Negro.

 

Nos Passos de Querino: Rumo ao IX CBPN

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Mercado, Instituição e democracia

 

Mercado, Instituição e democracia

 

Não se pode falar do contexto nacional sem abordarmos alguns aspectos do contexto internacional. Da invasão promovida pelos europeus em todas as partes do mundo até nossos dias, houve uma grande evolução em todas as instituições que refletiram no mundo inteiro.

 

A pregação da fé religiosa impondo uma visão de mundo centrada na exclusão do “outro”, isto é, daquele que são diferentes, motivou guerras e genocídios. A ferro e a fogo milhares de culturas foram excluídas. A força da imposição de valores religiosos, culturas foram destruídas e milhões de seres humanos foram  tiveram mortos.

 

O Brasil, invenção tipicamente europeia, não podia ficar de fora desta história. Atesta isto o fato de a escravidão ter sido a mais longa e estável instituição, no sentido que Douglas North dá a  estas. Seu fim, desencadeará um permanente estado de instabilidade econômica, política e social. Esta instabilidade política será obrigatoriamente seguida de crises econômicas. Os governos de JK, Jango e mesmo os ditadores militares terão dificuldade de contornar estas crises.

 

No período do pós-segunda guerra mundial, a geopolítica mundial sofre uma profunda modificação, tendo profundo reflexo no país, politico, econômica e social. O processo civilizatório europeu, que este passou teve significativo avanço com os crimes de genocídio cometido contra os judeus e outros povos. Esta rearrumacao vai interferir em todos os países.

 

Nos Estado Unidos, país que  se consolida na hegemonia econômica  e militar, uma profunda transformação se verifica. Sendo vitorioso na luta contra a barbárie dos europeus, este país não poderia continuar praticando a barbárie contra os afro-americanos em seu próprio território. Embora seus principais parceiros, também vitoriosos, mantiveram relações cordiais com os bárbaros na África.

 

A luta pelos direitos civis dos afro americanos, terá reflexo no mundo todo, inclusive no Brasil. As elites culturais conservadoras e boa parte das reformistas, aqui no Brasil, irão promover uma violência institucional que impedirá todo avanço nas reformas que poderiam incluir parcela significativa, a maioria Afro-brasileira.

 

As reformas de Base, principalmente a reforma da terra, poderia transforma o país numa sociedade de inclusão. A terra tem uma rigidez que remonta a Lei da Terra de 1850. Esta rigidez impede a livre utilização deste importante fator de produção. A reforma eleitoral colocaria no centro da decisão política milhões de brasileiros, transformando-os em cidadãos, embora ainda de segunda classe, uma vez que não estava no horizonte destes uma luta pelo direito civis, como estava na visão do Afro-americano. Entretanto, estava na visão das elites.

 

A pobreza e a desigualdade, decorrências de uma cultura da cultura de exclusão, era uma preocupação do projeto dos reformistas. No entanto, os métodos não iam de encontro direto ao centro do problema que era a exclusão da maioria esmagadora da maioria da população, que era afrodescendente, diferentemente dos afro-americanos que representava algo em torno de dez por cento. Nos Estados Unidos Gary Becker verá esta questão como central no mercado de trabalho.

 

Portanto, este é o contexto que servira de pano de fundo para as crises politicas dos anos seguintes. Estas crises serão acompanhadas de crises econômicas sucessivas. As soluções aportadas nunca levam em conta a matriz do problema herdada da cultura do invasor, qual seja a exclusão do “Outro”.

sábado, 13 de maio de 2023

 Treze de Maio: nada a comemorar



Treze de maio nada a comemorar. 


A mentira e a violência contra a cultura são fundamentais para a manutenção do racismo. É isto que pretendemos demostrar com este breve texto que nos motiva o aniversário da lei da farsa.


Esta data é a maior farsa de nossa história, que já é um acumulado de mentiras oficiais. Fingiu-se acabar com quase quatro século de exploração e com três linhas de uma lei. As elites culturais do país agiram desta forma pressionadas pela crise econômica e pela pressão internacional, assinando mais uma lei para “inglês ver”. Como diz o poeta: “livre do acoite da senzala, preso na miséria da favela”.


A farsa reforça-se quando computamos a quantidade de escravizados existentes no país quando foi assinada esta lei. Em números aproximados, chegamos a menos de 10% da população negra nesta condição. A maioria estava localizada nos centros de expansão econômica, principalmente no oeste paulista, área de expansão da “indústria” cafeeira.


Um quantitativo significativo de afro-brasileiro já estava livre da escravização, mas estavam presos a miséria do racismo e das leis opressoras que não foram abolidas na farsa das três linhas. Estes eram, entretanto, a maioria da população brasileira. Por isso, as elites culturais iniciaram um processo de tentativa de.apagamento das culturas dos descendentes de africanos. Hegemônicas naquele momento.


Em razão do racismo, cento e trinta e cinco após mais uma “lei para inglês ver” o Povo Negro continua, em sua esmagadora maioria, à margem dos avanços da modernidade ocidental. Sem possibilidade de livre circulação, não conseguimos produzir riquezas. Mesmo os poucos que as produzem veem os frutos de seus trabalhos serem transferidos aos “herdeiros da rainha” em razão do racista. 


Portanto, nesta data de hoje, de nada a comemorar, é fundamental que se restabeleça a verdade histórica para que possamos usufruir de uma verdadeira liberdade, fazendo avançar nossas tradições culturais de tal forma que haja equilíbrio dentro da instituição enquanto cultura no mercado. Somente com este equilíbrio nos apropriaremos do produto de nosso trabalho.