sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O saco de bondades para os empresários e de maldades para os empreendedores afro-brasileiros

O saco de bondades para os empresários e de maldades para os empreendedores afro-brasileiros


Os americanos no auge da  crise aplicaram várias medidas de caráter expansionistas, chegando até ao ponto de se tornarem acionistas de fábricas de automóveis, que depois venderam com lucro. Com tais medidas os eles exportarão a crise para o resto do mundo. Isto porque eles têm uma economia aberta e por isso eficiente. Em seu recente discurso no Congresso sobre estado da nação o  Presidente  Obama afirmou que a crise é coisa  do passado.
Agora mesmo o Banco Central da Europa – BCE  tomou a decisão de comprar títulos da dívida dos países da zona euro, que estão na posse dos bancos, isto vai injetar bilhões de euro no mercado, dando  grande incentivo às economias que estão na beira da recessão. Em palavras diretas, o BCE vai imprimir bilhetes e comprar as dívidas dos países, vai gerar uma pequena inflação, digamos corretiva.
No Brasil, medidas como estas são impossíveis porque nossa economia é fechada para proteger ineficientes empresários. Por isso, as medidas vão sempre de encontro aos interesses dos segmentos desprotegidos, que, por mais paradoxal que pareça, só servem para eleger presidentes. Embora sejam desprotegidos, estes setores são altamente eficientes, a pesar da “discriminação negativa” a que estão sempre submetidos.
Nas palavras do Ministro da Fazenda, « É uma sequência de ações que estão sendo tomadas para reequilibrar a economia e particularmente o ponto fiscal, com o objetivo de aumentar a confiança » Joaquim Levy. De um governo recém-eleito esperasse medidas que vão ao encontro dos eleitores que, ao votar, confiaram nele e não em busca da confiança de setores do mercado que não acreditou no governo.
Não se pode afirmar que as medidas anunciadas sejam um “saco de maldades” como apregoou os defensores de cortes de despesas e porta-vozes do caos na  imprensa. As medidas são ruins para a sociedade, mas são boas para os ineficientes empresários. Os aumentos de impostos indiretos só prejudica o cidadão, mas dão margem aos empresários para culpar o estado pela “elevada carga tributária“. Camuflando com isto suas ineficiências na gestão dos recursos, principalmente os humanos. 
Abaixo fazemos alguns comentários sobre o sentido das medidas. Salta à vista a preocupação em não desagradar poderosos setores econômicos. Por isso o ataque indireto aos mais fracos.
A Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico (Cide) vai impactar de forma direta toda a sociedade. Principalmente os pequenos comerciantes, taxistas, transportadores que utilizam viaturas para seus negócios. Os empresários afro-brasileiros continuarão a ter seus custos pressionados e sem acesso ao crédito. Ao contrário, o aumento do IOF para as pessoas físicas é uma tributação direta, mas é  preciso entender que muitos pequenos empreendedores utilizam operações de crédito, principalmente o consignado para formar capital de giro ou fazer pequenos investimentos. É muito comum servidores públicos federais, estaduais e municipais levantarem pequenos empréstimos consignados para compor “guias” para seus descendentes e amigos que estão empreendendo.
Aumentos do PIS/Cofins e alteração na forma de tributação da indústria de Cosméticos, sempre recaem nos cidadãos. No caso dos cosméticos, atinge aos milhares de pequenos salões de beleza comando por afro-brasileiras. Neste caso, a compensação deveria ser fornecimento capital de giro a custo subsidiado pelo governo federal.
Em última palavra são medidas que prejudicam o cidadão, principalmente os afro-brasileiros. Estes terão que trabalhar mais para produzir a mesma quantidade de riqueza. Da riqueza produzida, parte irá para os cofres dos governos. Outra parte irá para o lucro dos empresários que não pagam imposto.
Por último, o veto à correção da tabela do IR foi uma medida correta, pois imposto de renda das pessoas físicas é uma tributação direta. Deveria haver uma diminuição dos impostos das pessoas jurídicas, imposto indireto que é repassado ao contribuinte no custo dos produtos. Não que isto tornaria as empresas mais competitivas, mas tiraria dos ineficientes empresários uma desculpa para seus péssimos desempenho.
Portanto, é licito afirmar que as medidas tomadas pela equipe econômica vão de encontro aos eleitores da Presidenta e ao encontro dos ineficientes empresários. É indispensável o aumento da  arrecadação, mas outras medidas  são viáveis.
Para melhorar o caixa do Estado, o governo poderia regulamentar o imposto sobre as grandes fortunas já previsto na Constituição. Poderia também suspender o sucateamento da Secretaria da Receita Federal, contratando mais auditores, analistas, auxiliares e outros funcionários para estancar a sonegação. Ainda poderia como pacote de maldade para a classe media e rica, limitar muitas deduções fiscais constantes na declaração anual de IR.

Para gerar riquezas, é indispensável aumentar a inclusão social, cultural, política e econômica dos Afro-brasileiros. Uma proposta é facilitar o acesso ao crédito para a sociedade passiva de M. Santos, concedendo juros subsidiados. É esta sociedade que produz riquezas. Outras políticas universais focadas neste  segmento são inadiáveis, se quisermos definitivamente entrar no capitalismo.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Corrupção e Discriminação contra os Afro-brasileiros

Este texto foi originalmente publicado em meu livro “Elite e Dominação Política”. No qual discuto as manobras para excluir os afro-brasileiros do processo político. Fiz algumas modificações para adptá-lo ao momento em que nos encontramos e algumas correções sempre necessárias quando se revisita um texto escrito há algum tempo.

O texto discute o papel da corrupção na reprodução do capital. Não resta dúvida que no Brasil a corrupção está praticamente institucionalizada. Dela se encontra resquício no primeiro documento em língua portuguesa escrito no Brasil: a Carta de Pero Vaz de Caminha. Nos últimos meses ela ocupa, em manchetes, todos os veículos de imprensa. Mas em todos eles e em todos os comentários ela é destacada como um desvio moral. Neste texto, vamos abordá-la como um instrumento econômico, relacionando-a com atributos produtivos dos recursos humanos, discriminação e reprodução do capital.

Atributos produtivos são qualidades individuais adquiridas ao longo do processo social, seja através da qualificação formal, seja através das experiências vividas, que qualificam para o mercado de trabalho. Estes atributos deveriam ser remunerados de acordo como o retorno que eles dariam ao capital nele investido. Assim, contribuiriam mais com a produção da mais-valia os indivíduos que tivessem acumulado mais atributos produtivos. E, portanto, seriam melhores remunerados.

A mão-de-obra, enquanto recurso produtivo, é o principal elemento na produção de bens e serviços. O capital se serve deste e outros recursos para se reproduzir. A quantidade e qualidade destes recursos serão decisivas na reprodução do capital. Assim, quanto mais recursos humanos de qualidade tiver um país, mais desenvolvido este será e o capital se reproduzirá de maneira mais eficaz. É unanime que a educação é suficiente para resolver esta questão. Mas..., atenção algumas vezes a unanimidade é burra. A restrição à liberdade cria obstáculos até para indivíduos bem educados.

No Brasil, a discriminação impede que os recursos humanos sejam utilizados tendo como base sua capacidade produtiva, pois outros elementos presentes no mercado influenciam a escolha destes recursos. Por exemplo, o mais comum é sermos preteridos mesmo quando temos capacitação educacional acima de nossos concorrentes não afro-brasileiros. Nestes casos, os recursos humanos são escolhidos por afinidade étnica ou de gênero, isto é, opera-se a restrição da liberdade dos afro-brasileiros. Para isto tem importante papel a “instituição cultural” do mercado.

É neste ponto que entra a corrupção nas suas mais diversas formas. O capital, na sua necessidade de reprodução, mas limitado na extração da mais-valia, se apropria dos recursos públicos, da exploração brutal da mão-de-obra e, acima de tudo, da economia informal, onde ele joga a maioria dos trabalhadores discriminados. Desta forma, sua reprodução é sistematicamente garantida. Respaldada nas “instituição política e jurídicas” daquele mesmo mercado.

Neste caso, acabar com a corrupção seria o mesmo que acabar com a possibilidade de reprodução do capital. A solução estaria no combate  à discriminação aos afro-brasileiros. A elite cultural, que se beneficia desta forma de reprodução do capital, prefere este sistema, mesmo que isto diminua seus ganhos em comparação com outros modos de produção capitalista ocidental.

A contratação da mão-de-obra, na maioria das vezes, não leva em consideração sua qualidade, pois o que conta são as afinidades subjetivas, principalmente aquelas vinculadas a identidades étnicas e de gênero. Contrata-se pela cor da pele, pela textura do cabelo, pela cor dos olhos, isto é, pelas marcas de pertencimento étnico. Esta lógica limita de forma determinante a igualdade de oportunidade, assim como a origem, pois a discriminação vai além do fenótipo. O retorno que esta mão-de-obra pode dar ao capital está em último plano.

Assim, como a escolha dos recursos humanos é feita por afinidade étnica, isto é discriminando os afro-brasileiros, aqueles que têm preferência no mercado de trabalho não se motivam para a competição, pois sabem que seu lugar está garantido. Por isso, a mão-de-obra contratada é, no mais das vezes, pouco qualificada. Esta falta de qualificação prejudica a produtividade e a qualidade dos serviços e produtos oferecidos.

Não é a toa que a competitividade industrial brasileira é uma das mais baixas do mundo. Dos três fatores importantes da competitividade industrial, a saber: capital humano, inovação e capacidade empresarial, que são estritamente ligados, o primeiro é visto apenas como um “problema de educação”.  Insistem na necessidade de melhorar a qualidade da educação, entretanto esquecem da família, do país e, principalmente, da cultura, elementos centrais no combate ao principal obstáculo ao crescimento da competitividade brasileira: a livre ação dos agentes, ou melhor, a discriminação contra os afro-brasileiro.

Com efeito, a inovação tecnológica pode ser camuflada via importação de tecnologia; é o caso, por exemplo, das zonas francas, dos polos tecnológicos etc. Da mesma forma, a capacidade empresarial pode ser “criada” pela entrega do capital nacional aos empreendedores estrangeiros; foi o caso das privatizações da era FHC, das “atrações” de empresas a custa de muitos benefícios fiscais, pelos estados e municípios. Entretanto, o capital humano já não pode ser importado, como na época do embranquecimento, no início do século XX.


Portanto, é a discriminação contra os afro-brasileiros que deve ser combatida se quisermos colocar a corrupção apenas como uma questão moral. Através de “políticas públicas universais focadas” é possível uma necessária e ampla inclusão dos afro-brasileiros no mercado, não apenas do trabalho, mas acima de tudo no mercado de capitais.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Gedel Vieira Lima ou Paulo Souto: tudo será decidido nas cúpulas

Gedel ou Paulo Souto: tudo será decidido nas cúpulas

Os projetos das elites se confundem, divergindo apenas os nomes. Elite progressista no poder encontrou o natural consenso daqueles que detém o controle do aparelho estatal. A elite conservadora busca ampliar seu espaço no controle estatal, a partir da Prefeitura de Salvador e de Feira de Santana, os dois maiores municípios da Bahia. Ambas objetivam afastar a maioria população da possibilidade de influenciar as decisões que lhes dizem respeito.
A dificuldade dos articuladores da elite conservadora em anunciar seu candidato decorre do fato de que o candidato dos sonhos da facção dominante desta elite seria Paulo Souto, companheiro fiel de longas datas. Ocorre que o projeto político das elites (conservadoras e progressistas) na Bahia é nacional. Logo o nome ideal seria de Gedel Vieira Lima, pois este restringiria o palanque eleitoral de Dilma na Bahia. Como já está reduzido em Pernambuco.
Esta possibilidade de Paulo Souto evidencia o descrédito que as elites conservadoras da Bahia têm na candidatura de Aécio Neves. Somente neste caso pode-se entender a insistência em propor esta candidatura.
Gedel insiste em manter sua candidatura na certeza que, em caso contrário, poderá desaparecer do cenário político, como desapareceram os “vianas”, os magalhães (Juracy) etc.
É muito provável que esteja havendo pressão da cúpula de PSDB pela definição do nome de Gedel Vieira Lima na Bahia. Esta pressão pode se agravar, caso os tucanos emplaquem seus palanques políticos, que chamam de CPI. Esta é a uma possibilidade de atingir a imagem de Dilma e provocar um segundo turno.
Portanto, o que está em jogo são os grandes projetos nacionais, aos quais as elites baianas sempre se curvaram.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Todo cidadão deve pagar imposto


O Prefeito afirma que 50% estão isentos do IPTU. Isto é pura demagogia, pois aquilo que deixam de pagar diretamente aos cofres públicos paga, indiretamente, embutido no preço dos produtos e serviços que consomem.

As empresas deveriam sim ser isentas do IPTU e também de outros impostos. Os empresários, prefeito e todos que lidam com impostos sabem que o imposto pago em dia é custo que o produto absorve e que os contribuintes, sejam pobres ou ricos, pagam. Ambos fazem jogo de cena. Jogam para a torcida.
Entretanto, os serviços prestados são diferenciados. Os mais de 50% do prefeito sabem como estão as condições de suas ruas, de suas escolas, da coleta de lixo sem seus bairros. Estes não se dão conta de que são eles que financiam as obras de requalificação que são preciosas para os empresários que vem seus imóveis valorizarem.

Portanto, empresários e prefeito deveriam parar de demagogia. O prefeito deveria propor uma reforma que diminuísse os impostos indiretos, isto é aqueles que incidem sobre as empresas e os empresários deveriam contribuir melhorando a eficiência de suas empresas, não apenas brigando contra a carga tributária.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A liberdade do negro é uma liberdade guerreira



A frase, que intitula estes comentários, que não é de minha autoria, era muito usada por nós militantes do Movimento Negro nos anos oitenta e noventa. Tinha para mim o sentido de duas necessidades. A primeira era a busca da liberdade, e a segunda, em consequência, a constante necessidade de guerrear, lutar por essa liberdade. Ir e vir não eram direitos assegurados aos afro-brasileiros, enquanto direitos naturais, bem como a liberdade de expressão por exemplo. No entanto, o que nos preocupava eram os direitos ao trabalho, a educação entre outros direitos que afirmam as liberdades substantivas historicamente negadas a aqueles, que não refletem o modelo cristão-ocidental.
Os que não refletem o modelo critão-ocidental, os afro-brasileiros em nosso caso, tem a liberdade como essência de sua cosmogonia. Os mitos que explicam o mundo para nossos ancestrais estão sempre em busca da liberdade. Portanto é este que deve nortear nossas lutas. Entretanto, pensar a liberdade pouco esteve no horizonte de nossas lutas. Mas o que é o racismo, senão a negação da liberdade. Por isso, cabe ao estado promover meios de lutas contra este tipo de restrição a liberdade.
O pensamento liberal clássico é intransigente na defesa das liberdades individuais. Defende-as acima de todos os demais direitos dos cidadãos. Entretanto, o pensamento liberal moderno, sempre priorizando a liberdade individual, como centro de seu pensamento, admiti a existência de conflito entre liberdade formal e a liberdade substancial, aquela que decorre dos conflitos sociais. Esta última deve ser preocupação do Estado, com vistas a impedir avanços nas desigualdades sociais.
O pensamento liberal no Brasil é “uma ideia fora do lugar”. Os “liberais mitigados” foram os principais inimigos das cotas, juntamente com grupos marxistas radicais. Estranho paradoxo: os herdeiros dos antigos escravagistas aliados aos revolucionários da classe operária[1]. Este liberal-oportunismo defende apenas a diminuição da carga tributária, de forma a impedir a possibilidade do estado prover as liberdades substantivas. Portanto, vamos dialogar com verdadeiros liberais.
John RAWS cunhou a seguinte frase, que dá bem a dimensão da preocupação dos liberais com as injustiças sociais:“... Aqueles que defendem ordenações injustas e lucram com elas, negando com desprezo os direitos e as liberdades dos outros, provavelmente não deixarão que escrúpulos relacionados ao estado de direito interfiram em seus interesses em casos particulares” .
            Com efeito, os críticos das politicas de “discriminação positiva”, alegando violência às liberdades estão na contra mão do pensamento liberal. Pois defendem “ordenações injustas e lucram com elas...”. Ninguém pode negar que o percentual de estudantes negros nas universidades públicas brasileiras não seja fruto de uma ordenação injusta. Bem como, exercendo a função de professores.
Existe nas sociedades modernas, principalmente nas pós-coloniais acúmulos de patrimônio, sejam econômicos, sejam culturais decorrentes de posições herdades de ações ocorridas no passado, na maioria das vezes pouco éticas. A concepção liberal “tenta corrigir isso acrescentando á exigência de carreiras abertas a talentos a condição adicional de uma equitativa igualdade”. Esta equitativa igualdade busca observar as desigualdades sociais, agir de forma a tratar seus agentes de forma desigual, procurando atender a possibilidades de que todos tenham uma “oportunidade equitativa”. Com isto, novos talentos vêm à tona no processo de competição no mercado.
Isto não seria possível sem a ação de uma força, digamos para resumir, impor-se ao mercado. Assim, conclui RAWS “A interpretação liberal... busca, então mitigar a influência das contingências sociais e boa sorte espontânea sobre a distribuição das porções. Para atingir esse objetivo é necessário impor ao sistema social condições estruturais básicas adicionais”. A imposição se faz necessária, uma vez que as resistências advêm justamente daqueles que se beneficiam do sistema injusto. A este RAWS informa, sem que os falsos “liberais mitigados” brasileiras deem ouvidos, “... ele se apoia na ideia de que numa economia competitiva (com ou sem propriedade privada) favorecendo um sistema de classes aberto, desigualdades excessivas não será a regra.
            No caso do Brasil, as desigualdades excessivas são a regra. O percentual ínfimo de brasileiros afrodescendentes na graduação evidencia esta disparidade. Como também nos cursos de pós-graduação. E o mais agravante ainda, repetimos, são os percentuais de afrodescendente nas universidades como professores. O acesso aos cursos de pós-graduação, assim como a carreira do magistério superior são concursos eivados de subjetividade.
Reconhecer a existência de desigualdades e utilizar os instrumentos de políticas públicas para corrigi-las, tem sido tarefa desempenhada cada vez com mais desenvoltura pelos governos, principalmente quando pilotado por governos liberais. Pelo menos nos países efetivamente capitalista.
Assim é observado no caso das políticas de discriminação positiva, principalmente no caso das cotas para ingresso nas universidades. Por exemplo, o mais ruidoso exemplo de políticas de discriminação positiva, as cotas nos Estados Unidos nascem no governo liberal progressistas de Kennedy nos anos 60. Na França, da “ liberté, egalité e fraternité”, são socialistas de François Holande que são contra. Ficando os liberais de Nicola Sarkozy, majoritários na defensiva, num sociedade dita avançada, mas profundamente racista.
Por isso somos obrigado a reconhecer que os liberalismo praticado depois do manifesto comunista esta muito longe do liberalismo de seus fundadores. A social democracia implantada na Europa, necessária para conter o “espectro do comunismo” que a rondava, trouxe o verniz social necessário para popularizar  esta ideologia.
Este liberalismo social traz ao debate da produção e da circulação de riquezas a possibilidade de avanços na distribuição. Para Raws, “o papel do princípio da igualdade equitativa de oportunidade é assegurar que o sistema de cooperação seja um sistema de justiça pura...”. 
Mesmo no país das “ideias fora do lugar”, alguns “liberais reciclados”, como Merquior, afirma : Se suprimir o mercado é ferir de morte o substrato material das liberdades modernas, deixar tudo entregue ao seu império é restringir significativamente o livre gozo dessas mesmas liberdades a minorias  e a minorias  composta de privilegiados pelo berço, e não só pelo mérito”.
Nossos “liberais” acreditam que o mercado é simplesmente espaço de relações de troca. Vamos recorrer a um marxista para dar uma explicação convincente para as distorções no mercado brasileiro. Etienne Balibar afirma que o mercado é uma “estrutura modelada por várias instituições”. Em nosso caso, a instituição cultural tem um peso significativo.
O Estado deve garantir as liberdades individuais, assegurar aos agentes privados condições de produção de riqueza, principalmente através da eliminação dos entraves burocráticos econômicos e, principalmente subjetivos, que objetivam impedir que o cidadão ameace a estabilidade dos segmentos historicamente privilegiado. Com políticas públicas dirigidas a seguimentos historicamente excluído, este objetivo é rapidamente atendido.
A política de  reparação é a ação do estado para se contrapropor as injustiças sociais, para nós o racismo. Este é o papel do estado, mesmo na concepção liberal. Isto é, combater as desigualdades. Estas desigualdades deixadas a mercê do mercado tendem a se agravar. Os indivíduos independentemente da cor da pele, atuando livremente no mercado são capazes de produzir riquezas que beneficiaram todos os segmentos sem ocasionar desequilíbrio. Para que isto aconteça, concomitantemente, deve ser implantadas políticas quem desarticulam todas as redes de opressão. A principal malha desta rede é o racismo.
Em nosso caso, as forças do mercado agem com um sobre peso da “instituição cultural” porque os afro-brasileiros são majoritários neste mercado. Esta condição obriga o segmento, minoritário, mas politicamente hegemônico, a reforçar os controles do Estado sobre o cidadão afro-brasileiro. O exame vestibular, o concurso para professor, a distribuição de verbas para pesquisa são instrumentos cruéis de controle cultural.
Em resumo, é fundamental pensar o racismo como restrição a liberdade dos afro-brasileiros. Com isso exigir uma ação do estado contra esta forma de restrição a liberdade, garantindo com isso mais condição para liberdades substanciais.  Isto é, garantido cotas nas universidades em todos os níveis, assim como a utilização de instrumentos econômicos para a transformação social.





[1] Nilo Rosa dos Santos, Elite e dominação politica.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Manifestação em repúdio à exclusão dos escritores afro-brasileiros

 Manifestação em repúdio à exclusão dos escritores afro-brasileiros 


O Movimento Negro Unificado-BA vem associar-se às entidades do movimento negro em protesto  contra a inexpressiva quantidade de negras e negros na delegação brasileira na  Feira do Livro em Frankfurt, conforme as denúncias da surpresa imprensa alemã.
Tal denúncia causou indignação para aqueles que lutam contra as propostas de invisibilização do negro na sociedade brasileira. A ausência de negras e negros, naquela atividade, revala uma tentativa de exclusão que não é mais despercebida naquele e em outros países. A tentativa de mostrar uma cara europeia da sociedade brasileira não consegue mais convencer a parte do mundo de onde parcela minoritária da sociedade brasileira é oriunda. Esta impossibilidade decorre exatamente da inserção dos negros e das negras nos espaços intelectuais, artísticos e literários daqueles países.
Mas, se a denuncia da imprensa alemã causou  indignação aos anfitriões; as justificativas das autoridades brasileiras evidenciam o grau de discriminação na visão destas autoridades. Ao afirmar que critérios estéticos motivaram as escolhas, tais autoridades ofendem a todos os afro-brasileiros, sobretudo as escritoras negras  e aos escritores negros, estes tem produção de altíssima qualidade e apreciada em todos os mercados.
Esta atitude contraria os avanços legais e institucionais que os negros vêm conquistando em nossa sociedade. Embora poucos, estes avanços são importantes se compararmos com a hipocrisia da democracia racial, historicamente defendida pela elite cultural nos exterior. Com efeito, a lei das cotas nas universidades federais, a Lei 103623/2003, o Estatuto da Igualdade Racial são marcos legais fundamentais para a luta de restrição à liberdade que representa o racismo em nosso país.
Por isso, o MNU-BA deseja se associar, na compreensão de que a decisão foi ilegal, merecendo, portanto uma interpelação jurídica ao encontro dos responsáveis por tal decisão. Estamos dispostos, portanto,  a nos juntarmos a todas e todos que desejam reparação jurídica para tal ilegalidade.

Bahia, 20 de novembro 2013.

Movimento Negro Unificado - Bahia

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

É a política estúpidos

É a política estúpidos

Os indicadores sociais da Bahia por longo tempo estiveram estacionados nas piores posições no Brasil. O longo período de estagnação econômica que o Estado viveu a partir do declínio da exploração do açúcar e da transferência da capital para o Sudeste foi acompanhado de um forte crescimento econômico sem que houvesse, entretanto, melhora no padrão nos indicadores sociais.

Nos últimos anos, apesar da pequena melhora, estes índices dentro do ranking nacional, não alterou a situação da Bahia. Com efeito, estamos na vigésima segunda posição nos números apresentados para 2013.  Esta posição torna-se inexplicável, quando constatamos o potencial econômico encontrado no Estado. Urge, portanto, encontrarmos uma explicação para este triste fenômeno.

Muitos dos que pensam nosso Estado atribuem este fenômeno a aspectos econômicos, culpam a falta de infraestrutura, exemplificando com o estado da malha ferroviária e rodoviária, carências portuárias, dentre outros. Por isso, insistem na necessidade de trazer para o Estado recursos para melhorias nas tais atividades exemplificadas. De fato, temos uma carência de infraestrutura, temos problemas portuários e muitos outros. Mas, quase todos os estados os têm; e outros ainda mais graves. Logo, embora devamos reconhecer a necessidade de melhorias, devemos relativizá-los para justificar nosso atraso.

Em nossa opinião, nosso atraso decorre da falta da mediação política. No longo período de estagnação econômica, esta foi praticamente inexistente. No período de forte crescimento econômico dos últimos cinquenta anos, a intermediação política ficou condicionada as duas vertentes das elites culturais. Nos primeiros, quarenta anos, isto é, 1960 até 2000, a elite cultural conservadora dirigiu o Estado, mantendo uma reduzida mediação política mesmo com seus aliados. Era a época da “politica do chicote”.

Com a ameaça da ascensão de representantes das elites culturais progressistas e elites insurgentes, ouve, como reação, uma tentativa de intermediação politica de parte dos setores da elite cultural conservadora. Esta tentativa, além de tímida, foi fortemente controlada pelo “Führer” desta elite. Este tentou controlar a elite cultural progressista em crescimento e seus antigos e expurgados aliados através de métodos nada éticos.

A consequência era previsível. A arca da aliança entre a elite cultural progressista e os expurgados da elite cultural conservadora, impulsionada pelos ventos das mudanças nacionais, deslocou os setores da elite conservadora para a oposição. Este processo, obrigatoriamente, teve uma forte intermediação politica. Esta intermediação política foi muito importante para o Estado no inicio desta estranha coalizão. No entanto, os métodos e as praticas da elite conservadora, em nosso Estado, não foram abandonados, mas sim radicalizado com a “política do troca troca”.

Violar painel do Congresso é um crime contra o Estado. Fazer escuta telefônica é violar a intimidade do cidadão, portanto é um crime contra a humanidade. Mas, o mais prejudicial dos crimes cometidos foi assassinar a política. Isto foi feito no Estado nos últimos 50 anos. Cessar este crime deveria ter sido a primeira obrigação de um governante que se quer progressista.


Concluímos, utilizando uma expressão de um importante intelectual insurgente de nosso Estado, Prof. Milton Santos: “Daí a relevância da política, isto é, da arte de pensar as mudanças e de criar as condições para torna-las efetivas”. Isto é, com “chicote ou troca troca”, voltaremos ao passado.